“O Malcolm que eXistimos”

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What's The Point?

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Nós temos um líder. Um negro, um líder, eterno. Dentre outras maneiras de chamá-lo, o conhecemos como Malcolm X.
“X” – leia-se “Écs”, como se pronuncia em inglês – representa uma realidade nominal da imensa maioria das negras e negros que vivem nas Américas, o nome, a identidade de um nome e sobrenome que foram roubados e excluídos pela ignorância, violência e criminosidade branca de outros tempos, o racismo, e que, diferentemente dos nomes africanos que se perderam nas Américas, infelizmente, o racismo ainda se encontra presente hoje em dia. X é negar o nome branco insignificante que nos fora dado. X é a lacuna que remete a uma origem, roubada, violentada, abusada e assassinada. E X é um símbolo, hoje, da revolução, das palavras, atitudes e vida de um grande homem, Malcolm, que lidera ainda hoje às nossas palavras, atitudes e vida. Porque somos pretas, porque somos pretos e devemos ser X para lutar. Lutar pois ainda há combate todo dia.
Aos pretos e pretas de hoje vale reconhecer as palavras, atitudes e história de vida desse líder, Malcolm, que, de negro banal, entregue ao que a sociedade americana racista quer e oferece, deixou o sobrenome Little – que significa pequeno em inglês – e se tornou um gigante. Gigante e eterno.
Filho de pai protestante, que foi assassinado pela racista organização Klun Klux Klan, e de mãe que foi considerada louca, perdendo assim a guarda dos filhos. Malcolm cresceu entre brancos, como acontece na América desde que nosso povo foi sequestrado para cá. Crescemos entre brancos, e infelizmente entre o racismo, que teve origem com eles e que muitos ainda conservam. Na escola, Malcolm teve tudo que a escola não deve fazer: tirar os sonhos. Ele queria ser advogado, mas um professor, nada educador, preso em seu tempo e em seu racismo banal, o “abriu os olhos”, dizendo que não conseguiria ser o que sonhava. Esse professor fechava os olhos do pequeno Malcolm, mas o fazia sonhar, até o momento que começou a acordar…
Malcolm na juventude alisava os cabelos. Usava dessas químicas que alisam queimando o couro cabeludo. Por que a negra e o negro querem se aproximar do modelo branco de beleza? Por que ensinam à negra e ao negro que não ser branco significa não ser belo? Por que o negro e a negra se submetem a sofrer para se branquear, para serem como o branco? Isso não é o que você é. Isso é o que te forçam a ser, te forçam a aceitar como belo, como referência, desde que você nasce e cresce. Porque você vê a branca e o branco, e assim eles são. Porque te ofendem e te excluem por você não parecer o “normal”, que é o banal, na TV, na propaganda, no outdoor, por não parecer aquela branca ou aquele branco: “beleza” que se vende, (única opção?) e que se compra. Não compre! Você aceita isso por ser manipulada ou manipulado. Desde a escravização dos nossos antepassados, existiram aqueles que se deixaram levar pela manipulação branca. O capitão do mato, o negro da casa, que quando o branco ficava doente, ele dizia “Chefe… Nós ficamos doentes” e quando um negro do campo, buscando liberdade, dizia para ele, “Venha, vamos fugir”, ele replicava “Por quê? O que é melhor que o que temos aqui?”. Pois este é o exemplo do negro da casa, ontem e hoje, este é o negro que não enxerga esse racismo que se mantém, não se enxerga negro, e replica a frase mor da ignorância, ao indagar, “Por quê?? Nós somos todos iguais!”. Nós?? Iguais?? Se assim é, por que há então o racismo opressivo à pessoa de pele pigmentada e traços afro, e não igualmente à branca ou não-afros, se somos iguais? Nós não somos brancos. Não temos nome. Temos cor. Malcolm X largou o cabelo alisado, após uma época de crimes em sua vida, para, na prisão, encontrar a liberdade dos padrões e amarras racistas a que ainda nascemos submetidos. Não encontrou o seu nome, mas encontrou o X, nome de todos, também encontrou a cor, sua e nossa, para que fora da prisão, nós encontrássemos o homem que com a palavra enfrentou, tal como verdadeiro Ogun, um guerreiro, o racismo vindos originalmente, sim, de brancos e que nada mudou. X, ensina o próprio Malcolm, vem do vazio da Matemática, remetendo a tudo que o racismo tirou dos nossos antepassados e nos tenta tirar hoje.
A fala de Malcolm X é consciente, objetiva e justa. Os EUA tentaram taxar sua fala de discurso de ódio, e violência, mas é a mais pura defesa, expressão à opressão, é resistência, é combate. As palavras de Malcolm nunca foram afirmações de violência, mas sim defesas em respostas à altura da violência racista de origem branca impregnada socialmente.
Os olhos fechados da criança Malcolm não podem continuar se refletindo em outras crianças. Elas não precisam ter pesadelos, como nossas crianças do passado tanto tiveram e ainda infelizmente tem. Nós temos que ter sonhos, mas além disso estarmos acordados, atentos, sempre!
O autoritarismo branco conservador levou o corpo de Malcolm X colocando mais uma vez um negro a tirar a vida de outro. Malcolm foi assassinado onde teve sua vida tornada pública, em um último discurso. O corpo, baleado por tiros, caiu,mas a voz continua alta e precisa chegando em nossos ouvidos, em nossa mente. A vida é energia, e ele segue nas nossas palavras. Nós somos o negro do campo, resistente, e lutando, mesmo que o racismo tente tirar nossos corpos, quando e onde for. Existimos e resistimos.

Por André Carvalho.

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